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Identificação do Orago


O OragoNo início do século XVII (1603), os registos paroquiais dão a designação de igreja de S. Gião, forma contraída de Julião, à matriz da Figueira da Foz, mas poucos anos depois já aparece a grafia actual.
Há 36 freguesias no país cujo orago é S. Julião, embora possa não se tratar da mesma entidade. A esmagadora maioria (28) situa-se a Norte do Mondego, sendo os distritos de Braga (8), Coimbra (5), Bragança (4), Viana do Castelo (4) e Viseu (3) os que apresentam maior número de casos.


Uma questão preliminar se coloca: quem foi S. Julião, o orago da Figueira da Foz? O problema é intrincado e está envolto em mistério. Francisco dos Santos Viegas afirmou o seguinte: “Pela existência duma antiga imagem, em pedra, de S. Julião Mártir; de outra em obra de talha, que era venerada no Altar-mor; pela data da festividade – 9 de Janeiro: se restabelece a verdade histórica sobre o Orago da Freguesia, que é ab initio S. JULIÃO-MÁRTIR de Antioquia, e não S. Julião-Mártir de Anjou, como por muito tempo se julgou” *. Esta opinião deve ter-lhe sido transmitida pelo Prior José Lourenço dos Santos Palrinhas, que a exprimiu no jornal O Dever**.

Há aqui vários equívocos. Quem era S. Julião-Mártir de Anjou? Não aparece nas listas de santos nenhum com esta designação. Seria S. Julião de Le Mans, festejado a 27 de Janeiro, que viveu no século III e foi patrono de diversas igrejas inglesas? Para complicar a questão, existe (ou existia na década de 1930) na igreja matriz da Figueira um retábulo cuja imagem central é (ou era) um bispo em êxtase, figura identificada com S. Julião-Bispo. Seria este o evangelizador e primeiro bispo da diocese cenomanense (de Le Mans)?


O Padre Melchior dos Reis, na sua informação paroquial de 1721, indica como dia próprio de S. Julião o dia 7 de Janeiro. Não é muito provável que se tenha enganado no dia, até porque era natural da Figueira e conhecia bem as tradições locais. A verdade é que, em tempos anteriores (em 1840, por exemplo) o S. Julião da Figueira era festejado no dia 7 de Janeiro, como aliás era celebrado (por volta de 1960) nesse mesmo dia na freguesia de S. Julião de Portunhos. De resto, nos calendários e códices antigos (Calendário Anónimo Andaluz, Calendário de Córdova de 961 e Códices de 1039 a 1072), a festa de S. Julião (que aparece quase sempre associado a Santa Basilissa e algumas vezes aos seus companheiros) ocorria sempre no dia 7 do primeiro mês do ano.
O S. Julião modernamente celebrado em 9 de Janeiro (quando deveria sê-lo em 7 do mesmo mês), que tudo indica ser o titular da freguesia da Figueira da Foz, é uma figura controversa, havendo alguns hagiógrafos que contestam mesmo a sua existência histórica.


Teria nascido cerca de 250 (segundo uma cronologia indicada pelo Prior José dos Santos Palrinhas, que não menciona a fonte utilizada), em Antioquia, cidade da Síria. Pouco depois de atingir os 18 anos, casou com Basilissa. Segundo a lenda, este casal comprometeu-se a viver em perpétua castidade. Procuraram obter a santificação através da perfeição e de uma vida ascética. Para esse efeito, transformaram a casa em que habitavam num hospício, que tinha capacidade para recolher até mil pobres. Basilissa ocupava-se das pessoas do seu sexo, em instalações separadas, enquanto Julião se encarregava dos homens.


Por este último motivo, Julião foi indevidamente confundido com um seu homónimo, designado por Julião Hospitalário. Só que este outro Julião, também conhecido por Julião, o Pobre, que tem uma igreja com o seu nome em Paris, é celebrado em 12 de Fevereiro. Tendo morto os pais, por engano, procurou redimir-se dedicando-se a obras de caridade, nomeadamente criando um hospital para pobres. É considerado santo padroeiro dos barqueiros, palhaços e trabalhadores de circo, peregrinos, pastores, viajantes e das profissões itinerantes, de uma forma geral. Assim se explica que também seja protector dos hospedeiros, estalajadeiros e donos de hotéis.


Note-se que há mais santos com o nome Julião, celebrados respectivamente em 7 de Janeiro (Julião de Cagliari), 7 de Fevereiro (Julião de Bolonha, do séc. V), 17 de Fevereiro (Julião de Cesareia, queimado vivo em 309), 16 de Março (Julião de Anazarbo, na Ásia Menor, mártir em 302), 9 de Junho (que viveu no séc. IV), 18 de Julho, 25 de Agosto, 28 de Agosto (Julião de Auvergne ou de Brioude, decapitado em 304), 30 de Outubro (mártir em Alexandria) e 9 de Dezembro (Julião de Apameia, na Síria). O mais tardio de todos foi S. Julião de Toledo (falecido em 690), arcebispo daquela cidade (que se tornou Sé Primaz de Espanha e Portugal) e provavelmente o único com existência histórica comprovada. Foi um poderoso chefe da Igreja nos finais do domínio visigótico, sendo o responsável pela reunião de vários concílios e pela revisão da liturgia.
Não são concordantes as informações acerca de Basilissa, que uns dizem ter sido martirizada com Julião e outros cristãos, enquanto fontes alternativas dizem ter sobrevivido a sete perseguições e ter morrido em paz, predizendo que o marido viria a passar pelo martírio, o que teria acontecido alguns anos mais tarde.


Também não são coincidentes os dados acerca do local onde viveram e morreram. Há quem diga que a sua existência decorreu no Egipto. Quanto ao local do martírio, a maioria das informações indica Antioquia, o que não é muito coerente com o dado anterior. A data também varia consoante as fontes. Terá sido no reinado de Diocleciano, período fértil em perseguições aos Cristãos, em 302, cerca de 304 ou em 313. Segundo um artigo de O Dever***, S. Julião, padroeiro da Figueira, foi martirizado em 310.
Segundo a versão mais difundida, S. Julião sofreu o martírio juntamente com 31 companheiros, incluindo Anastásio (recém-convertido ao Cristianismo), António (sacerdote), Basilissa (esposa de Julião), Marcionila e Celso (criança de sete anos, filho da anterior e do juiz que condenou Julião). Poupado pelas feras e tendo resistido às chamas, Julião acabou por ser decapitado.
Note-se que há, pelo menos, uma freguesia no espaço nacional que tem como oragos em simultâneo S. Julião e Santa Basilissa: a de Frielas, no concelho de Loures.

 

* Francisco dos Santos-Viegas, Templos, Cruzeiros, Alminhas. Monumentos de Portugal. Figueira da Foz. S. Julião-Mártir, Figueira da Foz, Escola Gráfica Figueirense, s/data, p. 14-II.
** O Dever, 4 de Setembro de 1937, p.1.
*** O Dever, 9 de Janeiro de 1932, p.2.

 
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