Avançar para o conteúdo do website Diminiu o tamanho de letraPredefinição do tamanho de letraAumenta o tamanho de letra
Entrada Notícias Homenagem a Manuel Fernandes Tomás
Homenagem a Manuel Fernandes Tomás PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Terça, 30 Agosto 2011 14:28

Decorreu, no passado dia 24 de Agosto, mais uma homenagem ao figueirense "Libertador da Pátria". Foi com muito orgulho que, uma vez mais, a Junta de Freguesia se associou a esta justíssima comemoração.

Como singela homenagem a esta grande figura de cidadão, vamos transcrever a Oração Fúnebre a Manuel Fernandes Tomás, proferido por esse enorme homem das letras portuguesas que foi Almeida Garrett.
Infelizmente é uma peça literária que muitos portugueses desconhecem mas que vale a pena ser lida e meditada.

 

ORAÇÃO FÚNEBRE
de MANUEL FERNANDES TOMÁS
Por João Baptista da Silva Leitão d´Almeida Garrett

SENHORES,

Venho hoje pronunciar um grande nome; mas tão grande como ele será a dor de proferi-lo: maior nome, não o pronunciou boca de homem; maior mágoa não a sentiu coração vivente. Manuel Fernandes Tomás... - morreu. Quereis maior nome que este? Quereis maior dor que a nossa? Não, Senhores, não há português honrado, que não clame afoito - não -; e, se algum há, português não é esse.
Se medisse o meu dever pela bitola de minhas forças; se regulasse o desempenho das funções deste lugar pelas qualidades dos que me ouvem; não restaria (pronunciado tal nome) ao complemento do meu ofício, senão derramar lágrimas, e prantear convosco: mas urge o dever forçoso; e conquanto se acanha o orador na mesquinhes de suas forças, sobeja a vastidão do assunto para dar largas ao mais limitado espírito, e desenvolver o mais curto engenho. Penso no meu objecto, e em vez de me apoucar à face de sua grandeza sinto elevar-me até ele; vejo que me espraio pela imensidão de seu infinito.
Mas não penseis que vou enfeitar-me de flores oratórias; não julgueis que vou servir-me dos atavios emprestados da arte: são postiços esses enfeites; são estranhos esses atavios; são as brilhantes roupas com que a mão da eloquência servil adorna o esqueleto da ambição, e lhe encobre o asqueroso dos vermes com a túnica da pompa: mas vem a mão dos séculos (e essa, não a compra o ouro, nem a desvairão honras) rasga-lhe as roupas mal seguras, e então aparece o horror do sepulcro, e o nada de uma cinza mesquinha, que não legou uma página à história das idades, nem deixou uma letra no pequeno livro dos homens de bem.
Não, Senhores, a eloquência do homem livre é a linguagem do coração: desconhece ornatos, ignora enfeites; é simples como a natureza; é singela como a sua simplicidade.
Vede esses edifícios, que nos deixarão avoengos servis: olhai essas grimpas erguidas por mãos de escravos; examinai os recortados florões dessa arquitectura chamada Gótica: vedes curtas linhas; observais acanhados traços; tudo respira a mesquinhes do engenho encoberta com os enfeites da arte: voltai agora para os grandes monumentos dos povos livres: Que diferença! Deparais com altivas colunas, com esbeltos pórticos, com donairosos remates: mas tudo simples, tudo singelo. Que altiva que é a liberdade, Senhores! Não desce a pequenas coisas; firma o compasso no ponto da grandeza, e descreve o círculo eternidade em derredor das suas obras.
Não são as pompas do discurso, não são os atavios do ornato fúnebre os que honram a memória dos desaparecidos da terra. - Breve murcham as flores que espargiu sobre a campa a escassa mão de uma dor fingida - sem enfeites, e sem arte corram singelas as lágrimas do amigo; rebentem verdadeiros os soluços de um coração magoado, e então dizei afoitos que a morte desse homem foi sentida.
Deixai que assalariadas dextras levantem mausoléus; deixai-as que ergam obeliscos; que amontoem pirâmides: a solidez desses túmulos, o gigantesco desses colossos não servem senão para encher o vazio imenso, que deixara o coração do homem entre a dor e a verdade. Essas massas enormes, que topetam com as nuvens, e que levam da terra aos astros o sentimento penoso da aniquilação são o acoito de fingidas penas; são a exagerarão do orgulho encobrindo mentirosas mágoas.
Tal é, Senhores, a vaidade do mundo; tal é a mentira dos homens; tal a sorte do infeliz, que no fim do penosos caminho da existência não viu os olhos do seu amigo fitá-los na extremidade da vida: chegou às bordas do sepulcro, e não sentiu uma lágrima que lhe amolgasse a dureza da campa: entrou no jazigo, e não escutou um suspiro que lhe quebrasse o silêncio eterno da morada dos mortos: o pai, o filho, o esposo, estas classes privilegiadas pela natureza e pelo sentimento, lá virão um vislumbre de mágoa; mas foi ela sincera? homens que conheceis os homens, ousai asseverar-mo.
Vinde povos da terra, acudi nações do mundo: quereis conhecer a dor, quereis ver o sentimento nu como a verdade, sincero como a natureza? Voltai os olhos sobre os poucos Portugueses; fitai-os nestes ainda mais poucos, que o amor da pátria e das letras reuniu neste lugar.
Entre mal compostas paredes, escassas alfaias, não muitos homens; mas vede-lhe o semblante, mas lede-lhe o coração - imóveis como um sepulcro, o silêncio nos lábios e a dor no seio, só vem alguns suspiros cortar-lhe a mudez do luto, só o correr das lágrimas altera a imobilidade do seu abatimento: aí tendes o que é mágoa, vede aí o que é sentir irreparáveis perdas.
E quem choramos nós: quem lamentam os Portugueses? Um Cidadão extremado; um homem único; um benemérito da pátria; um libertador de um povo escravo: Manuel Fernandes Tomás. Que nome, Senhores, que nome nos fastos da liberdade! que pregam às idades futuras! que brado às gerações que hão-de vir! este nome será só por si a história de muitos séculos; este nome encerra em compêndio milhões de males arredados de um grande povo: bem incontáveis acarretados sobre ele.
Ah, Senhores, eu extasio-me, e perco o fio de um discurso, que quisera regularizar, mas que o excesso do entusiasmo me não deixa seguir senão em desalinho: estas vozes rompem do coração, e por mais que se esforça o espírito pelas ordenar, mal podem forças do entendimento onde o peito se expande sem regra: porei ânimo todavia em ser mais metódico nos louvores do grande homem, a quem por ventura minha me cabe hoje elogiar, e que por desventura nossa também nos cabe chorar hoje.
Dois são os elementos do homem de bem: natureza; e a sociedade: por aquela é homem; por esta é cidadão; em ambos eles o hei-de considerar; e em ambos vereis quanto merece os nossos elogios, e as nossas lágrimas.
Nascido com medíocre fortuna de honestos mas não abastados pais, Fernandes Tomás viu a luz do dia em 31 de Julho de 1771 na Vila da Figueira: educado na moral e na virtude, seus princípios farão os do homem honrado, e a sua infância, e puberdade os anúncios de um grande génio: no discurso da idade todas as virtudes naturais e domésticas o adornarão já maduro: bom filho, bom esposo, bom pai e bom amigo tal o virão sempre; tal se conservou inalterável: modesto consigo, desinteressado e franco, assim o viveu, e assim é morto: girai no círculo de suas relações, e apontai-me uma voz que não bem diga a sua memória; mostrai-me olhos que o vissem, e dizei-me se aridez da indiferença lhos deixou secos.
Argumento único da existência de um Deus, virtudes do Corão humano, solitário presente dos Céus à terra amargurada qual de vós não excitou, não dirigiu os movimentos todos daquele peito? compêndio de todas elas carácter, e humanidade, vosso trono inabalável não o assentou a constância, não o conservou sempre dentro de tão grande alma?
Como homem honrou a natureza; como cidadão a pátria que o diga: eu falarei por ela: entrado, depois de distintos estudos, na carreira da magistratura, desempenhados (admirável e quase incrível feito!) seus difíceis encargos com a pontualidade de um juiz-cidadão, o patriotismo de Fernandes Tomás não estava satisfeito ainda com a simples prática das virtudes cívicas passivas: cabia maior esforço em coração tamanho, e maior tarefa era dada a braço tão valente: olhou para a sua pátria, e gemeu sobre ela: a sua alma era livre mas os seus pulsos tinham ferros; e esses ferros eram um pequeno elo do grilhão imenso que pesava sobre a pátria.
Não foi só dado a Grécia e Roma ter Brutos e Thrasybulos, produzir Codros e Fábios; o pequeno Portugal também tem quem o liberte; também sabe gerar quem se vote pela sua salvação; Fernandes Tomás concebeu o grande projecto: concebeu-o, e começou a executá-lo. Ei-lo que ajunta fieis amigos e vai em silêncio tecendo o fio luminoso que o há-de guiar no labirinto difícil de uma revolução tão necessária, quanto arriscada. Vós sabeis quanto fez, para que é repeti-lo? foi aqui, nesta mesma cidade que para sentar as bases de uma acção tão arrojada veio ele mesmo pôr-se às bordas do precipício para lhe medir toda a profundidade: nem com maior perigo, nem com mais ânimo examinava Plínio a torrente do Vesúvio que o consumiu. O Filósofo Português ia a ser vítima do seu amor da pátria como o fora o Romano do amor da ciência: a amizade o salvou e os céus o guardarão para nossa ventura.
Raiou o grande dia 24 de Agosto o primeiro da liberdade Portuguesa; infatigável não descansou desde então: havia entrado na arena, não voltava sem ter prostrado o grande inimigo com quem travara: este inimigo vós o conheceis, e bem mal que todos o conhecemos! Era o Despotismo: aterrou-o, venceu-o. Portugal tornou a ver as suas cortes, e a nação teve quem a representasse: toda a Europa admirou com respeito um congresso ilustrado, e no meio dele o campeão da liberdade, o patriarca da regeneração portuguesa: vede-o como alça denodado o trovão da sua voz enérgica para fulminar antigos abusos, e destruir arraigados vícios: a sua eloquência despida de pompas não respira senão verdade: severa, e descarnada só põem mira na utilidade comum, e no bem da pátria: vem-lhe do coração franco aos lábios sinceros por natural impulso de indefeso zelo: no estirado curso de comprida legislatura sempre o mesmo, sempre incansável, de balde a moléstia lhe abate as forças; o ânimo é sempre igual; nem há poder que o mingue, nem doença que o desfalque.
Já com passos arrastados na derradeira das sessões legislativas, ainda vai animá-la com a sua presença, e pelejar ainda na extremidade do circo: a causa da liberdade está-lhe sobre o coração; e aquele coração é todo dela: com a morte vizinha ainda ergue o canto do Cisne; ainda perora pelos interesses da sua pátria; esta pátria, que lhe tem custado tanto; esta pátria, que é todo o seu desvelo, ele há-de deixá-la em breve... Ah!... pouco restava aos Portugueses da carreira de uma existência tão preciosa e tão necessária! A máxima coluna de seu edifício social vacilava em sua base, mas valente ainda em sua ruína, ela o sustentava com forças de atlante.
Guiei-vos, senhores, com prazer pela vida do nosso libertador; satisfeito retrilhei convosco as suas pisadas pelo caminho de sua existência; não encontrámos vestígios de seus pés senão na vereda da virtude, nem sinal da sua passagem senão na estrada da justiça; não vimos acções suas senão na carreira da glória: por tão consolador assunto a minha alma se espraiou de gosto; velozes me corriam as palavras depois o coração, que as ditava; nem havia mister estudá-las, quando espontâneas me vinham aos lábios: mais difícil começa agora o meu empenho, mais amargo o meu ofício; vou renovar cruéis memórias, abrir chagas que ainda sangram; vou cravar ferros novos em peitos apunhalados de fresco.
Sobre o leito da morte... perdoai-me estas lágrimas... perdoai-mas!... não; engrossai-as com as vossas; sobre o leito da morte; coberto de angústias; retalhado de dores; o coração eivado de amargura, eis aí onde vamos conhecê-lo; eis aí onde veremos o homem, o cidadão, e o justo.
Corria já longo o azedo período de assustadora moléstia: aos amigos que o cercavam havia desaparecido a esperança, e quase se escondia já aos olhos inturvados do enfermo: a sua constância é inabalável; a sua intrepidez a da ousadia honrada, dizei-o vós, homens sensíveis, que lhe assististes em seus últimos momentos, vós, a quem honra e louvor pelo desempenho fiel dos santos deveres de homem e de amigo, vós o dizeis: vistes acaso que o mais ligeiro movimento de desespero lhe enrugasse a frente; lhe desvairasse os olhos; quando fugida a esperança, quando perdido o futuro, medindo o curto espaço, que lhe restava de uma triste vida, viu a morte... e só ela? - não por certo: pálidos sustos, negros horrores, espinhosos remorsos, herança do ímpio, e do vicioso, cercai-o enquanto braceja com a morte, fazer-lhe ala no momento da despedida; o justo não vos teme; recorda sem vergonha, lembra-se sem medo das acções da sua vida; a consciência da virtude, não receia que a sua memória seja praguejada, nem maldito o seu nome: Os amigos, e a pátria... que dolorosa saudade! mas somente saudade: e este sentimento, penoso sim, mas não amargo, é o único do homem de bem nos derradeiros instantes da existência.
A sua memória, e o seu nome... Oh! que memória e que nome! gerações que heis de vir depois de nós, a história vo-lo não há-de levar com manchas de ambição, nem com as nódoas de pessoal interesse: Fernandes Tomás morreu pobre: morreu pobre... Que exemplo de glória a muitos! Que exemplo de vergonha a tantos! - Oh! seja imolação a todos: morreu pobre! pela terceira vez o repito; e os filhos do varão ilustre teriam de esmolar às portas, se homens que desempenham este nome, não previssem seu estabelecimento: Portugal todo terá a satisfação de sustentar os filhos do seu libertador, e de pagar à viúva e órfãos escassos juros de uma dívida incalculável.
Alfim chegou a hora: os séculos que a ouvirão soar, marcarão este ponto no círculo das idades: Manuel Fernandes Tomás expira: seu cadáver ungido e embalsamado será conservado como relíquia preciosa de liberdade e de glória, e a voracidade do sepulcro respeitará aqueles ossos honrados. Notai, senhores, de passagem um contraste bem digno de reparo: ungem-se os déspotas ao subir a erguidos tronos de ouro; unge-se o homem livre ao descer ao humilde cofre de chumbo; mas a unção daquele é veneno de morte que se espargirá sobre um povo desgraçado; mas a unção deste é cheiro suave de virtude que se exalará por compridas gerações, e lhes recordará insolúveis benefícios: o perfume do déspota morre com ele, e se converte em cheiro de podridão; o do libertador respira de su túmulo com aromas de salutar fragrância.
Aqui fenece o meu discurso: eu o remato como hei começado: Manuel Fernandes Tomás morreu: derramemos lágrimas de gratidão e de saudade: Este é o verdadeiro elogio fúnebre dos grandes homens; estas lágrimas são as honras do seu funeral, são as pompas do seu enterramento: elas terão lugar na história, elas serão o Epitáfio eloquente que mostrará aos vindouros ao jazigo das suas cinzas gloriosas: molhai com essas lágrimas a pena da verdade, e escrevei-lhe sobre a lápida sepulcral - AQUI JAZ O LIBERTADOR DOS PORTUGUESES: SALVOU A PÁTRIA, E MORREU POBRE.

 
Login:
Password:
NIF: 2º díg 1º díg

Novo registo
Recuperar password

(Disponível em horário de expediente)